Entre os meses de maio e agosto deste ano, o Estadão promoveu quatro encontros públicos para discutir os grandes temas brasileiros com algumas das melhores cabeças do país, que resultaram no caderno de propostas Brasil Adiante, que será entregue ao presidente que assumirá o mandato a partir de 2027. Vou me ater ao eixo IV deste documento (Saúde), mais especificamente à proposta 2: prevenir doenças crônicas numa população que envelhece em ritmo acelerado.
Vou ilustrar com alguns números históricos o quanto as projeções populacionais indicam um futuro muito preocupante.
O Vigitel é uma pesquisa anual do Ministério da Saúde que monitora a saúde da população brasileira. Entrevistadores ligam para telefones sorteados aleatoriamente para acompanhar índices de obesidade, consumo de álcool, tabagismo, alimentação e prática de exercícios, para ajudar o SUS a planejar ações de prevenção e melhoria da qualidade de vida.
Aqui temos a série histórica das estimativas de sobrepeso e obesidade do Vigitel. Notem que o sobrepeso atingia 31% dos adultos no início da série, em 2006, para chegar a quase 37% em 2024. Já o sobrepeso que é considerado obesidade (IMC ≥ 30) subiu mais: de 11,8% para 25,7% da população adulta.
Pense nisto: hoje, quase dois terços dos brasileiros adultos estão acima do peso – sendo que um a cada quatro já está na faixa de obesidade (com todas as consequências danosas que isto acaba trazendo à saúde e à qualidade de vida).
Extrapolando a tendência histórica para 2040 (usando as projeções populacionais do IBGE), é possível que até lá já tenhamos passado de três quartos da população adulta acima do peso – cerca de 40% com IMC entre 25 e 30 e possivelmente mais de 35% com obesidade. Aliás, chama a atenção que no começo da série havia cerca de 3 adultos com sobrepeso entre IMC 25 e 30 para cada um com obesidade (IMC ≥30) – e possivelmente esta proporção caminhará para 1:1. Ou seja: não apenas haverá uma maior parcela da população acima do peso recomendado, mas, dentro dela, estão ganhando espaço os brasileiros considerados obesos.
Em números absolutos, tínhamos estimadas 100 milhões de pessoas acima do peso no Brasil em 2024 e tudo indica que caminharemos para quase 140 milhões em 2040 – o que significa um aumento de 40%, enquanto a população adulta como um todo deve crescer apenas 12% até então.
Mas o que isto significa concretamente para a saúde pública? Para ilustrar, vou considerar internações por infarto agudo do miocárdio. Segundo o Sistema de Informações Hospitalares, o SUS desembolsou em 2024 R$ 1,013 bilhão com internações (entre serviços hospitalares e de pessoal). Caso não alterássemos absolutamente nada na incidência de infartos, a conta chegaria a quase R$ 1,5 bilhão em 2040 – só pela mudança de perfil etário (pois haverá uma maior proporção de pessoas idosas que hoje – e idosos têm maior propensão a infarto). Mas, se considerarmos também os impactos do aumento da prevalência da obesidade, é realista considerar que a despesa chegue a R$ 2 bilhões por ano apenas por esta causa específica.
Algo similar acontecerá com outras enfermidades comuns, como hipertensão arterial, diabetes, AVCs e vários tipos de tumores – todas elas comprovadamente afetadas por sobrepeso e obesidade.
Estamos diante de dois fatos: o envelhecimento da população e o progressivo aumento de peso. Ambos têm impacto na saúde individual, gerando um importante aumento de custos para famílias, planos de saúde e para o Sistema Único de Saúde.
Quanto ao envelhecimento em si, é um fato demográfico, não há muito o que fazer, já está “encomendado”, como os demógrafos costumam dizer. Já quanto à tendência de aumento de sobrepeso e principalmente obesidade, é possível agir. Claro, é um desafio tremendo, pois demanda mudanças drásticas de hábitos de vida (ou por via medicamentosa, que seria mais fácil, mas isto ainda é algo muito novo e não dá para bater o martelo). O caminho está na prevenção: alimentação adequada, atividade física, higiene, socialização, uso correto de medicamentos, sono e aprendizado contínuo sobre autocuidado. Os profissionais de saúde têm o desafio de ensinar a população a ter estes hábitos para prevenir os problemas (reduzindo a incidência, que por enquanto só aumenta).
Um ponto fundamental levantado pelo Brasil Adiante: o modelo atual remunera os procedimentos realizados e não o resultado final. Mudar isso exigiria renegociar contratos com prestadores, revisar instrumentos regulatórios e de incentivos e criar sistemas de monitoramento inexistentes no SUS atual. É difícil? Sim. Mas com vontade política dá para fazer. Seria um ganha-ganha: redução de custo do sistema e melhora de qualidade de vida da população.
Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/frankito-o-curioso/obesidade-envelhecimento-uma-bomba-para-o-sus/
Franklin Weise







