Fraude na apuração? Como um problema técnico aliado a infográficos enganosos alimentou rumores

Fraude na apuração? Como um problema técnico aliado a infográficos enganosos alimentou rumores


No domingo passado, assim como boa parte dos brasileiros, eu estava acompanhando a apuração das urnas – tanto pela TV quanto pela internet. Num dado momento, ocorreu algo estranho: os painéis online (independentes) que eu acompanhava continuavam atualizando, enquanto os grandes portais estavam parados. Afinal, o que aconteceu? Foi manipulação, como muitos disseram? Vem que eu explico os detalhes que os dados contam.

Os boletins da totalização usados pelos grandes veículos de mídia (incluindo o Estadão) eram os boletins nacionais gerados pelo TSE. E aqui está esta série temporal.

Note que até 18h48 havia atualizações frequentes – mas a próxima só sairia às 19h14, quase meia hora depois. E, depois desta, só às 20h04, após mais 50 minutos.

Em paralelo, o TSE divulgava também os totais por estado – série esta que chegou a sofrer uma interrupção, mas menos longa que a dos resultados nacionais. Aí temos uma segunda apuração em paralelo, representada neste gráfico:

A despeito do intervalo sem atualizações, o restante não é incomum – ambas as séries convergem, como esperado.

De qualquer maneira, muitos perfis de redes sociais começaram a afirmar que a pausa seria o momento da virada, quando supostamente teria entrado em ação uma fraude eleitoral. Como exemplo, cito um vídeo do Allan dos Santos, no qual ele disse: “Ontem às 7h16, quando tudo parou, o Lula começou a crescer e o Flávio começou a cair. Eu acuso Luís Inácio Lula da Silva de fraude, sim.” A mesma narrativa foi amplamente repercutida em outros perfis: a falta de atualização seria um indício de alteração dos resultados a favor de Lula, segundo eles. O que eles “esqueceram” de fazer: checar a série temporal por regiões, que apresento no gráfico a seguir.

Perceba o quanto os estados do Sul e Centro-Oeste enviaram resultados rapidamente e já tinham mais de 80% dos votos computados às 19h00. Enquanto isto, o Nordeste estava pouco acima de 40%. Sabemos que justamente no Sul e Centro-Oeste Flávio Bolsonaro tinha uma grande vantagem de votos, portanto era normal e esperado ele começar num patamar alto. À medida que foram entrando os votos do Nordeste, esta vantagem diminuiu, pois nesta região Lula teve maior votação.

Acima, vemos o quanto o ritmo foi inconstante ao longo das primeiras 5 horas de apuração.

E neste outro gráfico, com os percentuais de votos válidos por candidato, vemos que a queda de Flávio não começou às 19h16 e tampouco na interrupção anterior, às 18h48. Ela começara antes, às 18h16:

Assim, a inflexão da vantagem de Flávio começou bem antes da pausa nos boletins nacionais e por um motivo óbvio: as diferentes velocidades de apuração das regiões.

E cabe um importante alerta: eu atribuo desinformação mais à ignorância que à má-fé. E penso que muitos daqueles que acreditaram em manipulação o fizeram ingenuamente, baseados em infográficos inadequados feitos por terceiros. Explico: o mais comum é representar a apuração com o eixo horizontal representando o tempo. É intuitivo, não? Mas isto traz um problema embutido: não é possível captar visualmente o ritmo de apuração (que muda muito, como mostrei). Então podem ocorrer mudanças bruscas quando é desovado um lote grande de votos – o que gera uma percepção de estranheza (pois não se esperam “degraus” nos percentuais. O gráfico abaixo mostra isto (foco na variação às 20h50):

Mas correu pelas redes uma versão alternativa bem pior: nela, o eixo horizontal foi considerado como sendo uma variável categórica (texto) em vez de tempo. A ferramenta que plota o gráfico entendia cada boletim como um ponto de dados equidistante do anterior, independente do horário. Assim, a distância dos boletins consecutivos de 17h29 e 17h30 ficou igual à distância entre os boletins de 19h14 e 20h04 (quando houve a pausa). O resultado é este que você vê aí: um estranhíssimo gráfico com uma inflexão repentina – que realmente não é esperada numa eleição limpa (se você não olhar o eixo X). Mas, diferente do que contaram, os números não estavam estranhos, mas foi, sim, uma escolha absolutamente bizarra e incorreta de infografia (que manipula a percepção do usuário).

A minha opção preferencial para representar a apuração é este tipo de gráfico: no eixo X, a porcentagem do total de urnas no país. Veja que, com os mesmos dados, não há “degraus” à medida que aumenta o número de urnas apuradas – e, claro, não induz ninguém a criar uma tese de fraude ou manipulação.

Voto a voto

Porcentagem de votos válidos por candidato

1º Turno

Fonte: TSE | Apuração não iniciada

Por último, não posso deixar de falar sobre a pausa em si. O TSE acabou publicando uma nota alegando sobrecarga do sistema, mas, como bem observou o também colunista Thiago Ayub, os arquivos são relativamente pequenos e o problema parece não ser este. Caberia uma maior transparência do tribunal para explicar tecnicamente o que ocorreu. O release do TSE acabou não sendo suficiente para tanto.

Resumindo: um problema técnico aliado a infográficos enganosos alimentou rumores vindos, por incrível que pareça, de partidários do lado vencedor. No entanto, ao inspecionar os dados e representá-los corretamente, estes rumores não se sustentam.

Nota: como o TSE não disponibiliza a série temporal, eu usei os dados compilados pelo Leonardo Dias no painel Apuração do 1º. Turno de 2026, que registrou as totalizações intermediárias, já que no TSE consta apenas o arquivo final (que sobrescreveu as versões intermediárias).



Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/frankito-o-curioso/fraude-na-apuracao-como-um-problema-tecnico-aliado-a-infograficos-enganosos-alimentou-rumores/

Franklin Weise