Que fim levou a Dynacom, dona do Dynavision?

Que fim levou a Dynacom, dona do Dynavision?


Brasil Game Show vai acabar? BGS 2026 sofre críticas nas redes sociais

A Brasil Game Show 2026 está sofrendo críticas pesadas nas redes sociais.

O mercado brasileiro de games tem uma história peculiar, marcada por consoles exclusivos, lançamentos atrasados e a pirataria como tema frequente. Para além de tudo isso, algumas fabricantes hoje esquecidas ou pouco lembradas são tão ou até mais nostálgicas do que as gigantes para mais de uma geração.

É o caso da Dynacom, marca nacional que conquistou uma fatia relevante do mercado com ideias arriscadas, apesar de seguir a mesma tendência de rivais, e marcou época principalmente pela linha Dynavision.

Porém, esse nome não é mais mencionado na indústria e novas gerações de jogadores já não sabem da importância desses aparelhos para quem não tinha acesso aos consoles de Atari ou Nintendo. A seguir, conheça ou relembre o que aconteceu com a companhia, que sobreviveu a toda uma fase da indústria para se tornar vítima de outras tendências.

Uma referência no mercado de games

A empresa Dynacom nasce por volta de 1981 em São Paulo, fruto da parceria entre Jerry Mayo e Gabriel Almog. Jerry era o lado comercial da empresa, enquanto o Gabriel era mais voltado para a engenharia. Ele foi gerente na CCE, uma marca nacional de bastante sucesso em equipamentos de som, antes de ter o próprio empreendimento.

No início, ela fazia projetos e fabricava produtos eletrônicos de menor complexidade, como um bloqueador de chamadas telefônicas, mas por volta de 1981 entrou no setor de games. Isso aconteceu pela produção e distribuição de cartuchos de Atari 2600 copiados, depois de uma demanda das lojas Fotóptica.

Quando a Polyvox, grupo da marca Gradiente, começa a distribuir o console oficialmente em território nacional, ela avança para ter o próprio aparelho. Esse era o período conhecido como reserva de mercado, política em que a importação de eletrônicos estrangeiros era proibida. Isso fez com que várias empresas nacionais ocupassem esse espaço, hoje dos conglomerados globais.

A diferença é que, em muitos casos, essas fabricantes menores não tinham um produto feito do zero — os produtos eram “clones” de sucessos internacionais que não podiam chegar aqui.

Um clone é um videogame feito por uma empresa que não tem autorização da marca original, mas que replica elementos de arquitetura e o funcionamento de um console, além de rodar seus cartuchos. Isso normalmente era feito por engenharia reversa, com essas empresas decidindo se iriam copiar também o visual e os cartuchos.

Nasce o primeiro Dynavision

No início de 1984, chega às lojas o Dynavision. O console era um clone do Atari 2600, grande referência da época no setor, mas a qualidade do produto fez com que ele se destacasse bastante em meio a tantos clones que eram lançados no Brasil.

Para além de rodar os sucessos da época sem precisar gastar tanto com o Atari licenciado, ele foi elogiado por melhorias em design, bem diferente do original, tinha uma CPU mais poderosa e deixava a TV sem ruído na troca do cartucho.

Atari 2600, o console clonado pelo primeiro Dynavision. Foto: Reprodução/Atari Archives

O modelo contava até com joysticks com raros conectores frontais e melhores que os originais: o Dynastick, que tinha sido lançado antes mesmo do console. O primeiro Dynavision teve vendas animadoras, apesar de não ser um fenômeno, e incentivou a marca a seguir no mercado.

Tanto que ela lança em 1985 o ousado MegaBoy, uma espécie de “Atari portátil” — na verdade, um controle com encaixe para cartucho e que transmitia o sinal para uma televisão via antena, que era obrigatória para uso.

Ele foi focado em jogos educativos, mercado ainda pouco explorado no Brasil. Foram poucas unidades produzidas aqui, mas a Dynacom vendeu o projeto para um fabricante asiático e ganhou royalties dessa forma por algum tempo.

Outra tentativa sem sucesso foi o MX-1600, um microcomputador 8 bits baseado no estrangeiro TRS-80 Color. Ele não foi bem sucedido comercialmente, mas foi seguido por outros lançamentos no setor.

Outros consoles de sucesso da Dynacom

A Dynacom voltou a apostar no mercado de clones em 1989 com o Dynavision II, um dos primeiros clones nacionais do Nintendo Entertainment System, o NES ou Nintendinho.

Por fora, ele era quase o mesmo design do anterior, mas na cor branca e até com os controles de manche que nem existiam no console original.

Os clones do NES eram melhores tecnicamente, mas a concorrência também ficou maior, inclusive contra nomes como o Phantom System da Gradiente, o que fez a empresa perceber que teria que ousar ainda mais no próximo produto.

Um dos vários anúncios da Dynacom em revistas. Foto: Propagandas Históricas/Reprodução

Talvez o mais conhecido da empresa, o Dynavision 3 de 1991 era outro clone de Nintendinho, mas com várias modificações. Ele trazia o novo controle Turbo Pad, que copiava o visual do Mega Drive, além de um painel com sensores de toque no lugar de botões.

Outro recurso chamativo era a entrada dupla de cartuchos, que aceitava tanto cartuchos japoneses quanto os norte-americanos, que se diferenciavam pelo formato e a quantidade de pinos.

O console Dynavision 3, com controle e acessório de pistola. Foto: Sebo dos Games/Reprodução

Nesse período, a geração 16 bits já tinha começado, mas o console vendeu como uma alternativa para quem não poderia ter os modelos mais recentes. Fora a concorrência, no mesmo ano a reserva de mercado acaba com a abertura do mercado pelo então presidente Fernando Collor, ampliando a oferta de equipamentos estrangeiros e dificultando a vida das marcas nacionais.

Por isso, a Dynacom investiu pesado em marketing na época, com anúncios em revistas e em programas da TV aberta. Ainda na década de 1990, a empresa lançou outros produtos para se manter ativa na indústria:

  • o Dynavision 3 Radical e o Dynavision 3 Action, praticamente idênticos à terceira geração, mas com pequenas alterações visuais e nos acessórios.
  • o HandyVision, um console portátil sem fio conectado à TV por radiofrequência, como um equivalente do MegaBoy para o Nintendinho;
  • o Mega Vision, um clone do MegaDrive com adaptador para ler jogos de Master System e que, pela representação oficial da TecToy com a Sega, rendeu um processo que dificultou e encurtou o seu lançamento;
  • o Dynavision 4, mais um clone do NES e também com variações, como Action e Radical, além de novos acessórios;
  • e o Magic Computer PC 95, que era um computador pessoal com uma interface similar ao Windows, mas que também rodava os jogos do NES.

O que aconteceu com a Dynacom?

A Dynacom segue sobrevivendo no mercado e volta aos holofotes no fim dos anos 2000, quando fecha uma parceria com o SBT. O canal passa a oferecer o console como prêmio em programas, além de aparecer em mais propagandas.

O aparelho ficou famoso em especial no Bom Dia & Cia, onde ficou conhecido por ser “quase um PlayStation”. Isso, claro, estava longe de ser verdade e deve ter frustrado muitos espectadores: essa era uma época em que consoles bem mais poderosos eram a preferência do consumidor, como o PlayStation 2, o Wii e o Xbox 360.

O PS2 é recordista global de vendas em consoles e foi muito popular também no Brasil. Foto: Sony/Divulgação

Nos anos 2000, a empresa seguiu apostando em consoles, todos com características em comum: rodar jogos do NES e ter games na memória ou distribuídos em cartuchos multijogos, com dezenas de títulos em um só lugar.

São dessa época produtos como o Dynavision PC Game, que imitava um formato de torre de desktop, e o Dynavision Xtreme, outro clone com uma pistola de acessório.

Ela lança até o Wi Vision, uma imitação visual do Nintendo Wii que, na verdade, não era nada moderno e também ficava restrito a títulos de muitas gerações anteriores.

O fim da Dynacom

Com cada vez menos espaço e verba para seguir no mercado, a Dynacom para de fabricar hardware próprio em 2010 e “aluga” a marca para uma empresa de Manaus, a Ceder Eletrônica.

Ela também faz parcerias com empresas asiáticas para trazer dois aparelhos ao país. Um deles é o Dingoo, um portátil que emulava várias plataformas. O mercado de portáteis chineses baratos que fazem emulação hoje está em alta, mas não era comum na década passada.

Outro produto nessa mesma linha foi o Cybergame. o último console lançado pela marca. Ele funcionava como uma central multimídia e de emulação, mas não era um aparelho bom em vários aspectos, da qualidade da construção até o desempenho.

O Cybergame, console de emulação que marcou o fim da Dynacom. Foto: Dynacom/Divulgação

Assim como outras companhias em apuros, como CCE e Gradiente, ela também lançou produtos como um telefone fixo, um MP3 player portátil para rivalizar com o iPod e até um MP6 “tudo em um” que rodava vídeos, músicas e era também um mini emulador.

Porém, o setor de eletrônicos era ainda mais populoso e não foi mais possível seguir em frente. Em 2011, por críticas sobre a qualidade dos produtos produzidos e ainda menos espaço no mercado, ela anulou o contrato de licenciamento com a Ceder Eletrônica.

Ela faz uma queima de estoque dos produtos restantes, até encerrar as atividades de venda de eletrônicos em definitivo. Mesmo tanto depois depois, hoje em dia a memória da Dynacom segue viva entre colecionadores retrô, que ainda lembram com carinho da ousadia da companhia, além da venda de consoles usados por lojas online.

Que fim levou o Stadia, o aparelho de streaming de jogos da Google que iria ‘revolucionar’ o mercado? Saiba nesta matéria! /Com informações de WarpZone, Museum dos Games e VGDB.



Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/produto-e-review/que-fim-levou-a-dynacom-marca-brasileira-do-console-dynavision/

Nilton Kleina