Unitree Robotics: conheça a empresa por trás dos robôs que viralizaram

Unitree Robotics: conheça a empresa por trás dos robôs que viralizaram


A Unitree Robotics é a fabricante chinesa por trás dos cães-robôs e humanoides que viralizaram nas redes sociais. Sediada em Hangzhou, a empresa desenvolve máquinas capazes de caminhar, correr e realizar tarefas para pesquisa, indústria e consumidores.

A fama não surgiu do nada. Em 2025, ela entregou mais de 5,5 mil humanoides, cerca de 32% de todas as unidades vendidas no mundo, segundo o prospecto apresentado à Bolsa de Xangai.

O espetáculo, porém, passa na frente da utilidade. O próprio fundador da empresa admite que o momento decisivo dos robôs humanoides ainda pode estar a dez anos de distância.

Confira, a seguir, como a Unitree nasceu, quais robôs fabrica, quanto custam, como funcionam de verdade e o que mudou depois da estreia na Bolsa de Xangai, no segmento STAR Market — “a Nasdaq chinesa”.

O que é a Unitree Robotics?

A Unitree Robotics nasceu em agosto de 2016, em Hangzhou, na China, com uma ideia ambiciosa: tornar mais acessíveis os robôs com pernas. A empresa é registrada como Hangzhou Yushu Technology.

A aposta da casa nunca foi inventar atuadores novos — as peças que fazem as juntas se mexerem. Foi baratear e integrar o que já existia, aproveitando o ecossistema chinês de drones e veículos elétricos.

A empresa fabrica internamente os próprios motores, redutores e controladores. Essa verticalização derruba o custo e aparece na etiqueta: um cão-robô Go2, por exemplo, parte de US$ 1,6 mil, enquanto o Spot, quadrúpede da americana Boston Dynamics, foi lançado a US$ 74,5 mil.

A estratégia encontrou mercado. Em 2025, a Unitree registrou receita de 1,699 bilhão de yuans (US$ 252 milhões), alta de 335% em um ano, e responde hoje por mais de 60% do mercado global de robôs quadrúpedes.

Quem criou a Unitree Robotics?

Wang Xingxing não tinha nada de menino prodígio. Nascido em 1990 em Ningbo, foi um aluno discreto, que tropeçava em inglês e construiu seu primeiro robô bípede na faculdade com peças de sucata e 200 yuans no bolso — o equivalente a cerca de R$ 150 na cotação atual.

O salto veio no mestrado, na Universidade de Xangai, com um quadrúpede batizado de XDog. Em 2016, um vídeo do robô caminhando ajudou a colocar o projeto no radar da imprensa especializada.

Aos 26 anos, Wang deixou o emprego na DJI, a maior fabricante de drones do mundo, https://www.estadao.com.br/tecmundo/stem/212966-origem-robos-tudo-comecou/, com 2 milhões de yuans de um investidor-anjo. Dez anos depois, o IPO o tornou bilionário.

Como a Unitree se tornou conhecida mundialmente?

Na virada para o Ano-Novo Chinês de 2025, a televisão ajudou a levar a Unitree para um público muito maior: dezesseis humanoides H1 dançaram o yangge, uma dança folclórica chinesa, no Gala do Festival de Primavera, um dos programas de TV de maior audiência do mundo.

A partir daí, cada demonstração passou a render conteúdo viral: robôs correndo, dando cambalhotas, trocando golpes em ringues e executando sequências de kung fu.

Em agosto de 2026, a empresa apresentou o Superman, protótipo sem mãos nem cabeça, feito só para correr. O vídeo mostra um salto parado de 2 metros e velocidade de 12,66 m/s, marcas superiores aos recordes humanos — números divulgados pela própria Unitree, sem verificação independente.

Os perrengues também circulam: no primeiro Mundial de Robôs Humanoides, em 2025, o H1 venceu os 1.500 metros com 6min34s — e, no meio da prova, derrubou um operador que cruzou seu caminho na pista, que se levantou sem ferimentos.

Quadrúpedes e humanoides convivem no mesmo catálogo, com aplicações e preços bem diferentes. Foto: Unitree/Divulgação

Quais são os principais robôs da Unitree?

O catálogo tem duas famílias: os quadrúpedes, feitos para terrenos difíceis e inspeção, e os humanoides, para tarefas em ambientes desenhados para pessoas. A empresa ainda vende avulsos os motores, redutores e controladores que fabrica.

Os modelos mais conhecidos são:

  • Go2: cão-robô voltado ao mercado de consumo, com cerca de 15 kg e velocidade de até 5 m/s em condições de laboratório;
  • B2 e A2: quadrúpedes voltados principalmente a aplicações industriais, como inspeção e transporte de cargas;
  • R1: humanoide compacto, com cerca de 1,2 m, uma das opções mais acessíveis da linha;
  • G1: humanoide de 1,32 m, cerca de 35 kg e até 43 juntas motorizadas, dependendo da configuração;
  • H1 e H2: humanoides de tamanho adulto, com cerca de 1,80 m e 1,82 m de altura, respectivamente.

Quanto custa um robô da Unitree?

Na loja oficial, o robô quadrúpede Go2 parte de US$ 1,6 mil, enquanto o humanoide R1 começa em US$ 4,9 mil. Já o bípede G1 custa a partir de US$ 13,5 mil, podendo chegar a US$ 16 mil conforme a configuração.

Os modelos do tamanho de um adulto humano entram em outra faixa. O H2 aparece por US$ 29,9 mil, enquanto o H1 é listado por US$ 90 mil. Esses valores não incluem frete, impostos e outros custos de importação, que podem elevar bastante a conta para um comprador brasileiro.

Como funcionam os robôs da Unitree?

Os robôs combinam motores de alto torque nas juntas — ou seja, com muita força de rotação — com um pacote de sensores. O G1 chega a 43 motores, além de LiDAR (sensor que usa pulsos de laser para medir distâncias e mapear o ambiente), câmeras de profundidade e sensores inerciais que sustentam o equilíbrio.

Nem tudo o que se vê nos vídeos é autônomo — o que vale para o setor inteiro. Em corridas e lutas, operadores acompanham as máquinas com controle remoto e corrigem a postura em frações de segundo, porque a percepção do ambiente ainda falha em alta velocidade.

Qual é o papel da inteligência artificial no treinamento dos robôs?

A IA entra principalmente para ensinar o robô a se movimentar. Em simulações, modelos treinados por reforço fazem milhares de tentativas até aprender a andar, correr, manter o equilíbrio e se recuperar de uma queda.

Para ensinar tarefas mais complexas, a Unitree coleta dados de movimentos humanos com trajes de captura de movimento. Ou seja, uma pessoa executa a ação, e o sistema registra esses movimentos para ajudar a treinar o robô.

Quais são as vantagens e os riscos desses robôs?

O trunfo da Unitree é o preço; o limite é a independência — as máquinas ainda precisam de alguém no comando. Por isso o grosso das vendas vai para universidades, laboratórios e projetos de inspeção, não para linhas de montagem.

Entre as vantagens, estão:

  • Custo bem abaixo dos concorrentes ocidentais equivalentes;
  • Versões EDU voltadas a educação, pesquisa e desenvolvimento, com ferramentas para programadores criarem aplicações próprias;
  • Boa mobilidade em escadas, terrenos irregulares e espaços confinados, dependendo do modelo.

Entre as principais limitações, estão:

  • Necessidade de intervenção humana (teleoperação) em algumas tarefas e situações complexas;
  • Vulnerabilidades de segurança digital, incluindo uma falha via Bluetooth identificada por pesquisadores em 2025;
  • Risco de acidentes durante interações próximas com pessoas;
  • Custos de manutenção, peças e suporte que podem pesar fora do mercado chinês.

O humanoide G1 é alimentado por IA, pode manipular objetos, correr e interagir com as pessoas ao redor. Foto: Unitree/Divulgação

O que mudou depois do IPO da Unitree?

A Unitree estreou na Bolsa de Xangai em 19 de agosto de 2026 e captou 6,1 bilhões de yuans (US$ 904 milhões). Foi a primeira fabricante de humanoides a abrir capital na China continental.

A procura dos investidores bateu recordes: a oferta ao varejo foi 8 mil vezes maior que os papéis disponíveis, e as ações fecharam o primeiro pregão 460% acima do preço de emissão.

Esse apetite reflete uma aposta que vai além da Unitree: as remessas globais de humanoides somaram cerca de 19 mil unidades no primeiro semestre de 2026, alta de 272%, das quais 97% vieram de fabricantes chineses, segundo dados da Smart Analytics Global.

O que esperar dos robôs da Unitree nos próximos anos?

O próprio Wang Xingxing não está com pressa. O fundador da Unitree calcula que o “momento ChatGPT” da robótica — em que robôs consigam lidar com tarefas novas em ambientes desconhecidos — pode levar cerca de dez anos.

Isso não impede que a Unitree projete um crescimento agressivo: 20 mil humanoides em 2026 e meta de capacidade para fabricar até 190 mil robôs por ano. Analistas do banco americano JPMorgan projetam remessas anuais de 1,75 milhão de humanoides até 2030.

O que ainda separa esses robôs de uma função útil não é força nem equilíbrio, mas sim o repertório: eles travam diante de qualquer coisa que não tenha sido treinada antes. Fazer a máquina entender o que acontece ao redor, tomar decisões e executar tarefas sem precisar ser programado para cada situação nova é o desafio da próxima geração.

A Unitree conseguiu algo raro: colocar robôs com pernas em uma faixa de preço muito abaixo da praticada por fabricantes ocidentais em categorias semelhantes. Mas a fama esconde que nem tudo o que o robô mostra acontece sem ajuda humana.

O próximo teste, portanto, não será uma pirueta. Será uma jornada de trabalho. Quando um humanoide conseguir passar oito horas executando tarefas úteis e lidando com situações inesperadas, sem depender de alguém no controle, sairá do palco e do pregão para bater ponto na segunda-feira.

O que você acha de dividir seu local de trabalho com um robô desse tipo? Empolgante ou assustador? Compartilhe suas reações — junto com esta matéria — em suas redes sociais.



Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/inteligencia-artificial/unitree-robotics-conheca-a-empresa-por-tras-dos-robos-que-viralizaram/

Jorge Marin