Ativistas hackeiam câmeras de trânsito e expõem vigilância de carros e pedestres

Ativistas hackeiam câmeras de trânsito e expõem vigilância de carros e pedestres


Um grupo de ativistas removeu uma câmera de trânsito da Flock Safety em uma rodovia nos Estados Unidos e copiou os arquivos internos do aparelho. Os dados foram compartilhados com os veículos de jornalismo investigativo 404 Media e WIRED, além da organização de transparência Distributed Denial of Secrets. A análise conjunta do material revelou como os equipamentos da companhia realizam o monitoramento de carros e pessoas.

A fabricante contestou a ação e pontuou as restrições legais da prática. Em posicionamento oficial, um porta-voz da empresa declarou que “a remoção não autorizada e a violação de uma câmera da Flock é ilegal”. Apesar de afirmar levar a segurança a sério, a companhia argumentou não ter recebido notificações formais no canal de reporte de falhas e não ter acesso a detalhes suficientes para avaliar o caso.

Fundada nos Estados Unidos, a Flock Safety é uma das principais fornecedoras privadas de tecnologia para forças policiais e associações de moradores americanas. A empresa vende e aluga leitores automáticos de placas (ALPR, na sigla em inglês) e sensores acústicos de disparos de armas de fogo. O principal apelo comercial é a integração em nuvem, que permite que delegacias de diferentes cidades e estados consultem trajetos de motoristas em uma rede compartilhada nacionalmente.

Criminosos invadem câmeras da Flock e expõem vigilância de carros e pedestres 

O ataque contraria a tese defendida pela empresa de que os equipamentos contam com proteção interna inviolável. Afinal, os responsáveis pela invasão conseguiram acessar a memória do dispositivo e encontraram uma chave de criptografia salva no sistema. Ela permitiu abrir pastas restritas e liberar milhares de gravações e registros armazenados.

“Por que apenas destruí-las quando podemos fazer engenharia reversa e descobrir os segredos daqueles que nos espionam?”, afirmou um integrante do grupo invasor, autodenominado stegan0gram. O cibercriminoso completou: “Nós liberamos o equipamento em campo, o desarmamos e seguimos com a engenharia reversa das câmeras e de todo o sistema de energia solar associado”.

Exame dos arquivos

O programa interno identifica veículos, placas, bicicletas e também pedestres de maneira direta, de acordo com o exame dos arquivos. Quando alguém surge no enquadramento, o software registra a posição exata e o nível de certeza daquela identificação. Durante os testes práticos com o código recuperado, constatou-se que os modelos do sistema reconheceram pedestres e até a foto de rosto de um jornalista, embora a fabricante garanta que não utilize recursos de reconhecimento facial ativo.

Os registros resgatados pela apuração cobrem um período de 21 dias de operação. Nesse intervalo, a câmera registrou a passagem de cerca de 50,2 mil veículos e produziu 1,6 milhão de imagens. Quando um automóvel cruza o sensor, o equipamento dispara uma sequência rápida de fotos para capturar diferentes luminosidades da cena e da placa. O aparelho não faz a leitura completa dos dados do carro sozinho; recorta os melhores ângulos e envia os pacotes pela rede celular para os computadores centrais da companhia.

As câmeras também demonstraram falhas operacionais frequentes. Os relatórios internos apontaram mais de 27 mil erros por falta de espaço de armazenamento, que provocaram reinicializações repentinas no sistema. Em alguns momentos, a inteligência visual se confundiu e tratou adesivos automotivos, suportes de lojas e até o retalho de uma bandeira em uma mochila de motociclista como se fossem placas de trânsito.

Histórico de alertas

A facilidade com que o sistema foi copiado amplia o histórico de alertas emitidos pela comunidade de pesquisa digital. Em junho de 2025, o pesquisador Jon Gaines, conhecido como “GainSec”, publicou análises sobre brechas graves nos modelos Falcon e Sparrow da marca em um relatório técnico independente. O analista demonstrou que as câmeras vinham de fábrica com a inicialização destravada e sem criptografia no chip de memória principal.

Na época, o especialista identificou que um invasor com acesso ao aparelho poderia instalar modificações sem bloqueios. A Flock minimizou o problema em comunicado emitido em maio de 2025 em alerta oficial de segurança, sob a alegação de que as falhas exigiam contato físico com o poste e que os arquivos de vídeo eram deletados rapidamente após o envio para a nuvem. O episódio recente com o grupo invasor mostrou que a retenção local era longa o bastante para permitir o resgate de dezenas de milhares de mídias.

Noel Pichardo, ex-policial de Rhode Island que deixou a corporação para combater a expansão da empresa, expressou receio sobre as consequências táticas da sabotagem:

“Esse tipo de vigilantismo só vai cristalizar a crença da polícia e do Estado de que essa ferramenta é necessária. Quanto mais o Estado continuar a ignorar as queixas dos cidadãos contrários a esse tipo de vigilância, mais isso vai acontecer”, pontuou ele aos portais 404 Media e WIRED.

Há algum sistema como o Flock no Brasil?

Ferramentas que seguem essa mesma lógica de cerco e rastreamento veicular já fazem parte da rotina das forças de segurança pública do Brasil. O caso mais amplo em nível federal é o Córtex, sistema gerido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A plataforma unifica dados de radares de velocidade, câmeras de rodovias e sistemas municipais espalhados pelo país para ler placas de veículos por meio de reconhecimento óptico de caracteres (OCR).

Na esfera regional, cidades e estados operam os próprios modelos de cercamento eletrônico, conhecidos como “Muralhas Digitais” ou iniciativas como a “Muralha Paulista”. O mecanismo identifica o automóvel na via pública e dispara um aviso imediato aos centros de operações da polícia caso o veículo possua queixa de roubo, furto ou restrição judicial.

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Fonte da notícia: Estadão | As Últimas Notícias do Brasil e do Mundo https://www.estadao.com.br/tecmundo/ciberseguranca/ativistas-hackeiam-cameras-de-transito-e-expoem-vigilancia-de-carros-e-pedestres/

Luísa Giraldo