Grupos milicianos são denunciados na Paraíba após onda de violência

O Núcleo de Controle da Atividade Policial do Ministério Público da Paraíba recebeu denúncia contra uma organização de milicianos policiais que se autodenominam ‘A Ordem’, e vem desencadeando uma série de violências indiretas na Paraíba.

Circulou no WhatsApp uma carta onde esse suposto grupo de policiais avisa que irá realizar um banho de sangue na Paraíba contra as facções criminosas locais, com ameaças não só às lideranças desses grupos criminosos, mas também aos seus familiares e à comunidade em geral, e diz que se alguma ordem de ataque a policiais vier de dentro do presídio, as famílias desses detentos irão sofrer as consequências nos dias de visita.

O material circulou nos grupos de policiais e de toda a sociedade até chegar nas facções, e na última sexta, sábado e domingo houve um aumento exponencial de ocorrências.

O movimento, que reúne um grupo bem pequeno, é liderado pelo Deputado Estadual bolsonarista, Cabo Gilberto (PSL), e recebe orientações do famoso Gabinete do Ódio, de Brasília ( o deputado foi incumbido de fazer o palanque político de Bolsonaro a todo custo na PB).

Encabeçado pelo Cabo Gilberto, o qual atua partidarizando a polícia militar do Estado, o grupo vem expondo policiais que dão plantão extra, fazendo memes e chacotas, e divulgando o nome desses policiais para os grupos da internet.

Reajuste Salarial 

Recentemente, os policiais da Paraíba aceitaram a proposta do Governo do estado de um reajuste salarial de 10% e uma incorporação de 100% da bolsa desempenho em 48 meses. A categoria realizou uma assembleia na manhã da quarta-feira (12), em frente à Central de Polícia de João Pessoa.

O Dep. Cabo Gilberto, com intuito político de inflar a tropa contra o governador, e arregimentar força política dentro da corporação, não aceitou a proposta, incitando os policiais a retaliarem quem fizer hora extra.

“O Dep. Cabo Gilberto não se dando por satisfeito, está fazendo meme e partidarizando um setor que tem reivindicações legítimas, já que existe uma lei nacional que reestruturou a carreira da Polícia Militar, mas ele segue fragilizando a possibilidade desses policiais conquistarem as suas reivindicações”, comenta Tárcio Teixeira, integrante do PSOL na Paraíba, autor das denúncias ao Ministério Público.

Segundo fontes, dois indivíduos foram assassinados em Mangabeira, o que ocasionou a queima de um ônibus. O grupo miliciano ‘A Ordem’ imediatamente acusou a facção criminosa OKAIDA pelo incêndio como “retaliação à morte de vagabundo da OKAIDA”.

No entanto, a facção lançou uma nota nos grupos de whatsapp negando sua participação na queima do ônibus, ameaças a policiais ou qualquer outro ato de violência recente.


Arquivo Pessoal / Imagem Reprodução

“Não mexam com os familiares deles, que eles não mexem com a família de ninguém exatamente para ninguém mexer na deles. E não assumem autoria de nenhum desse  atentados, para todos que são da Paraíba ficarem atentos porque o outro lado está querendo uma guerra, e eles querem paz”, contou-nos uma fonte.

A intenção é transformar o cenário da segurança em clima caótico até que o governo não tenha condições de manter a segurança pública, a disciplina e a hierarquia, para declarar estado de anormalidade institucional, o que levaria a sociedade e os deputados a pedirem a Força de Segurança Nacional.

Inclusive, o Deputado Estadual Wallber Virgolino (Patriota) entrou com requerimento pedindo imediatamente a presença da Força Nacional na Paraíba no intuito de resolver o problema, o que supostamente ocasonaria uma imagem positiva para o candidato a presidente Jair Bolsonaro.

“Todos recebemos vídeo de ônibus queimado, assalto a banco, gente correndo numa praça. Os bandidos, sejam eles maus policiais ou as facções, sabem que naquela área não tem policial militar, não tem guarda fazendo a segurança da população e divulga essa lista onde não tem plantão extra de policiais, colocando os cidadãos em risco”, acrescenta Tárcio.

Gleyson Melo, do Movimento dos Trabalhadores por Direitos ( MTD), reflete que esse processo surge a partir de uma sinalização em que o governo Bolsonaro vai dar aumento para Policiais Federais. “Os Policiais Militares daqui também querem e é legítimo reivindicar melhores condições de trabalho. Agora, o que não pode é transformar esse movimento legítimo num processo político, através do Cabo Gilbeto”.

Gleyson acrescenta que já se sabe que o mesmo deputado está assessorando outros estados com o mesmo modus operandi, em Rio Grande do Norte, Ceará e Sergipe.

Denúncia aos Ministérios Públicos Federal e Estadual

Tárcio Teixeira, integrante do PSOL na Paraíba, encaminhou denúncia junto ao Ministério Público da Paraíba, e ao Ministérios Público Federal como assistente social e servidor efetivo do MPPB, reuniu os prints e conversas encaminhadas pessoalmente para o procurador-Geral de Justiça da Paraíba, Antônio Hortêncio Rocha Neto, e pelo MPV 2, Procurador Geral do Ministério Público Estadual.

Ao Ministério Público Federal, a denúncia foi feita com base na Lei que substitui a Lei de Segurança Nacional. A denúncia também foi protocolada no Conselho Estadual de Direitos Humanos.

Nesta última quarta-feira (26) foi realizado um debate público com movimentos sociais e lideranças políticas para  se envolverem e colaborarem nessa trincheira de luta contra o fascismo e ascenção das milícias na Paraíba. PSOL, UP, MTD, Adufpb e o ex-deputado federal Padre Luiz Couto estiveram presentes.

“Quando nós saímos da esfera estadual e realizamos denúncia junto ao Ministério Público Federal e acionamos bancada no Congresso Nacional é porque nós tendemos a acreditar que essa partidarização da Polícia Militar realizada por cabo Gilberto pode fazer parte de uma articulação nacional, ter uma relação com o que a gente viu acontecer no Ceará, no Rio Grande do Norte, o que está acontecendo em em Sergipe. Então a gente está se antecipando. O Bolsonaro não tem bancada no nordeste e esses seus representantes, essa sua milícia política, está agindo para construir essa bancada, além de colocar em risco a nossa democracia, o estado democrático de direito. Precisamos escancarar o que está acontecendo no nosso estado e cortar esse mal pela raiz.”, disse Tárcio Teixeira.